O fechamento do Petroline, corredor de 1.200 km que transporta cerca de 5 % do petróleo mundial da costa do Golfo Pérsico ao porto de Yambu, no Mar Vermelho, foi anunciado pela maior exportadora de petróleo do planeta depois que um trecho da infraestrutura foi atingido por drones lançados da direção do Iraque, ataque que autoridades sauditas atribuem a milícias iranianas.
A interrupção do fluxo de um dos principais caminhos alternativos ao estreito de Ormuz, já bloqueado por forças iranianas desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, fez o preço do barril Brent subir para US$ 108, ultrapassando a marca dos US$ 100 pela primeira vez em meses e mantendo‑se acima desse patamar por mais de uma semana.
A escalada dos preços reavivou temores de desabastecimento e alimentou expectativas inflacionárias, refletindo‑se em quedas acentuadas nos principais índices acionários de Wall Street a Xangai, bem como na B3 e no Ibovespa brasileiro.
Nos mercados de dívida, a alta do petróleo provocou uma fuga de investidores de títulos soberanos, levando os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA com vencimento em dez anos a ultrapassar 5 % ao ano, enquanto o Reino Unido chegou a 5,4 % – níveis não vistos desde 2007 – e o Japão viu sua taxa de títulos públicos subir a 3 %, a maior desde 1996.
Em resposta ao choque inflacionário, os bancos centrais começaram a reverter a política de corte de juros iniciada em 2026. O Banco Central Europeu, sob a liderança de Christine Lagarde, elevou a taxa básica para 2,5 % ao ano, e o Federal Reserve, agora presidido por Kevin Warsh, aumentou a taxa de referência em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75 % a 4 %, sinalizando possíveis novos ajustes ainda em 2026.
No Brasil, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tentou amortecer o impacto ao ampliar subsídios para gasolina e diesel, acumulando cerca de R$ 40 bilhões em apoio desde o início da guerra. A Petrobras chegou a anunciar, e depois revogar, um aumento da gasolina, enquanto o Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75 % ao ano – o menor nível desde março de 2025 – mas advertiu que a instabilidade internacional exige cautela.
Especialistas apontam que a volatilidade não deve desaparecer enquanto o conflito entre Estados Unidos e Irã permanecer sem solução. Bruno Cordeiro, da StoneX, afirma que o petróleo dificilmente retornará aos preços pré‑guerra no curto prazo, e Adauto Lima, da Franklin Templeton, descreve o cenário como um “novo choque inflacionário”. André Rebelo, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, alerta que a indústria, altamente dependente de energia, sentirá novamente a pressão de preços elevados se a alta persistir.
Enquanto as negociações de cessar‑fogo permanecem estagnadas, os efeitos econômicos do conflito – desde a alta dos combustíveis até a pressão sobre as políticas monetárias globais – continuam a se espalhar, reforçando a percepção de que a guerra tem consequências que vão muito além dos campos de batalha.