Apesar dessa prioridade declarada, o tema aparece atrás de outras preocupações da população. Segurança pública e criminalidade lideram a lista, citadas por 49% dos entrevistados. Em seguida estão o aumento do custo de vida ou a inflação (41%), a violência contra as mulheres e os feminicídios (36%) e a qualidade da saúde pública (34%). As mudanças climáticas e a crise ambiental aparecem em nono lugar, com 19%.

Segundo a pesquisa “Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros”, a maioria dos entrevistados considera importante que os candidatos às próximas eleições apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Para 62%, o tema é “muito importante”.

Os dados mostram que 87% dos entrevistados concordam que as mudanças climáticas estão provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor. Além disso, 85% consideram que o fenômeno afeta o cotidiano dos brasileiros; 79% defendem que o tema seja priorizado mesmo que isso implique custos econômicos; e 76% entendem que ainda é possível evitar os impactos mais graves caso medidas sejam adotadas imediatamente.

Além das mudanças climáticas, apontadas por 35% como o principal problema ambiental, 21% citaram a gestão de resíduos e lixo. Qualidade do ar e poluição foram mencionadas por 15%, e escassez de água e secas, por 14%.

Para Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, “a maioria dos presidenciáveis tem planos fracos ou inexistentes para o tema. Um dos candidatos, inclusive, é um negacionista convicto. A pesquisa mostra que os brasileiros querem compromissos dos candidatos na agenda climática, mas infelizmente não é o que está acontecendo”.

Em relação ao clima e meio ambiente na agenda governamental, 90% dos brasileiros consideram muito importante que o governo e as políticas públicas se dediquem à proteção ambiental, enquanto apenas 3% a consideram pouco ou nada importante.

Sobre as causas das mudanças climáticas, 58% dos entrevistados afirmam que o fenômeno é causado principalmente pela atividade humana; 36% atribuem o problema a uma combinação entre atividade humana e fenômenos naturais; e 5% consideram que as mudanças climáticas são explicadas principalmente por causas naturais. Em relação à responsabilidade pelo enfrentamento, 67% consideram que empresas e indústrias têm mais responsabilidade do que os cidadãos.

O levantamento abordou ainda o conhecimento sobre o papel do gás metano no aquecimento global. Embora ele seja muito mais potente que o CO2, o conhecimento sobre sua atuação e principais fontes é restrito. A maioria (64%) atribuiu como sua principal fonte os aterros sanitários, lixões e a queima de combustíveis fósseis. No Brasil, o gás metano é emitido principalmente na pecuária.

Para Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, “o esforço a ser feito é para que essa preocupação se reflita em votos que assegurem a eleição de candidatos que realmente incorporem esse tema em sua atuação. Em plena crise climática, não dá para aceitar negacionistas, declarados ou disfarçados, nem no Executivo, nem no Legislativo”.

Entre as políticas ambientais abordadas com os entrevistados, 43% rejeitam a flexibilização das normas ambientais e consideram que os investimentos devem se adaptar à regulamentação vigente. A percepção é de que 4 em 5 pessoas defendem uma posição de proteção ou cautela ambiental.

O papel das pessoas em geral nas políticas ambientais foi avaliado como negativo por 78% dos pesquisados, e apenas 6% lhes atribuíram avaliações positivas. Em relação às empresas privadas, houve 75% de avaliações negativas e 6% de positivas. O governo brasileiro obteve 71% de avaliações negativas e 9% de positivas. Segundo o relatório do estudo, isso indica que o problema ambiental é percebido como um déficit sistêmico, não atribuído exclusivamente a uma única instituição. A pesquisa indicou também que a principal responsabilidade para liderar uma mudança em relação às políticas ambientais recai sobre o governo federal.

A pesquisa ouviu 1.800 pessoas de todo o país, com 18 anos ou mais, entre os dias 17 e 20 de agosto. O questionário, aplicado online, foi composto por 32 perguntas sobre clima e meio ambiente e a presença de tais temas na agenda pública e governamental, além de cuidados, atitudes e comportamentos relacionados a esses temas.