Luiz Carlos, de 71 anos, integra a rede de apoio Jogadores Anônimos e afirma que, nos últimos meses, tem sido comum encontrar adolescentes de 14 anos buscando tratamento para o vício em "bets" – apostas realizadas em plataformas de jogos de azar pela internet.

Gustavo Pereira, que começou a apostar aos 18 anos, relata que em seis anos chegou a perder R$ 500 mil, apesar de ter conseguido transformar pequenos valores em somas de até R$ 300 mil em algumas ocasiões. "O dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro", disse o jovem, que está há cerca de dois meses sem apostar e tenta se sustentar vendendo café nas ruas de Lages, Santa Catarina.

Especialistas apontam que a facilidade de acesso a aplicativos de apostas pelo celular amplia a exposição de menores. Dados da UNICEF indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo inicia a prática de jogos de azar online antes dos 11 anos, e 78% já o faz a partir dos 12. No Brasil, pesquisa da Frente Parlamentar Mista de Educação, realizada em 2024, mostrou que 9,5% dos 1.912 estudantes entrevistados fizeram a primeira aposta aos 11 anos, e quase metade dos alunos do terceiro ano do ensino médio já apostou.

A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o cérebro adolescente ainda não desenvolveu plenamente as áreas responsáveis pelo controle de impulsos, o que o torna mais vulnerável ao estímulo da dopamina gerado pelas apostas. "O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar, mas ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte", afirmou.

O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) estima que, em 2024, pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets, com quase metade dos participantes ficando endividados. O diretor do IBICT, Tiago Braga, alerta para o risco de ideação suicida associada ao endividamento por jogo.

Em resposta ao crescimento das apostas entre menores, o governo federal sancionou, em setembro de 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que entrou em vigor em março de 2026. A lei impõe verificação de idade mais rigorosa, proíbe o acesso de menores a jogos de azar e a oferta de loot boxes, e estabelece responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado, segundo o advogado especializado Felipe Moreira.

A nova legislação também exige que escolas reforcem a cidadania digital e ofereçam orientação sobre riscos online. Paulo Chanan, diretor‑geral da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), destaca que, embora não se possa generalizar o comportamento de todos os jovens, os dados mostram que 34% dos estudantes considerariam necessário parar de apostar para iniciar ou concluir a graduação em 2026.

Para os membros da irmandade Jogadores Anônimos, como Carla Xavier (41) e Rogério (53), o apoio coletivo tem sido decisivo. Carla relata que o grupo recebe principalmente pessoas que já perderam tudo e que, sem ajuda, chegam a considerar o suicídio. "Com as apostas online, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje", disse.