O levantamento analisou como os governos estaduais de 26 unidades federativas distribuem os recursos destinados às polícias, ao sistema prisional e às políticas voltadas para egressos. O Acre não forneceu dados para o estudo.
A desigualdade na distribuição de recursos se intensificou em relação à edição anterior da pesquisa, que analisou dados de 2024. Naquele ano, para cada R$ 4.877 destinados às polícias, foram R$ 1.221 para o sistema penitenciário e R$ 1 para políticas exclusivas para egressos. O resultado, segundo o estudo, demonstra a concentração dos recursos na porta de entrada do sistema de justiça criminal e uma distribuição estruturada como um funil de investimentos.
Os gastos com as polícias nos estados analisados passaram de R$ 87,5 bilhões, em 2024, para R$ 103,5 bilhões em 2025. Mesmo dentro das corporações, há desproporcionalidade: as Polícias Militares, responsáveis pelo patrulhamento e policiamento ostensivo, concentraram R$ 60,7 bilhões, o equivalente a 58,6% da verba das polícias. As Polícias Civis, encarregadas das investigações de crimes em geral, gastaram R$ 22,2 bilhões (21,5%), enquanto as Polícias Técnico-Científicas, que realizam atividades como perícia e produção de provas, receberam R$ 2,8 bilhões (2,7%). Os R$ 17,8 bilhões restantes correspondem a despesas compartilhadas, que não podem ser atribuídas a uma única corporação.
Para a coordenadora de pesquisas do Justa, Taciana Santos, a priorização orçamentária das polícias não necessariamente resulta em mais segurança para a população. Os dados apontam que os governos estaduais têm priorizado o policiamento ostensivo, em detrimento de ações de investigação e inteligência. “É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avaliou Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.
Dos R$ 22,3 bilhões gastos pelos estados com o sistema prisional em 2025, cerca de R$ 13,7 bilhões correspondem ao encarceramento de pessoas negras, o equivalente a R$ 6 de cada R$ 10 investidos na área. Para essa estimativa, o Justa cruzou os gastos estaduais com dados do Sistema Nacional de Informações Penais (Sisdepen) de dezembro de 2025. Em 2024, o sistema penitenciário teve R$ 21,9 bilhões de gastos. Segundo a diretora-executiva, embora os gastos com o sistema prisional se mantenham praticamente estáveis, os aumentos identificados pela pesquisa têm se destinado principalmente à expansão da estrutura carcerária.
Na porta de saída do sistema prisional, os investimentos permaneceram praticamente estagnados. Os estados destinaram R$ 19 milhões para políticas exclusivas para egressos em 2025, contra R$ 18 milhões no ano anterior. “Como elementos fundamentais da segurança pública, as políticas para egressos permitem apoiar o acesso a documentação, moradia, saúde, educação, trabalho e renda, reduzindo barreiras para a reconstrução da vida após o cumprimento da pena”, enfatizou Zaffalon. Quando o estado destina bilhões à entrada e à permanência no sistema prisional, mas reserva valores residuais para a saída, afirma a diretora, ele limita as possibilidades de reinserção social e mantém condições que podem favorecer a reincidência.
Apenas sete unidades federativas investiram em políticas exclusivas para egressos em 2025, enquanto no ano anterior eram seis. Entre os estados que investiram, estão Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que não investiram no ano passado, mas passaram a registrar investimentos exclusivos para egressos em 2025, com R$ 414 mil e R$ 177 mil, respectivamente. São Paulo teve a maior parcela dos recursos exclusivos para egressos identificados pelo levantamento, com R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso investiu R$ 781 mil; Bahia, R$ 482 mil; e Sergipe, R$ 19 mil. Já Tocantins, que era um dos estados com investimento na área em 2024, chegou a ter dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual, mas não utilizou os recursos nas políticas para egressos.