A morte foi divulgada pelo departamento de saúde do Condado de Mifflin, onde o jovem morava. Segundo o comunicado, ele não havia sido vacinado. No sábado, 12, uma mulher de 40 anos do Condado de Jefferson, área rural no oeste da Pensilvânia, também morreu devido a complicações da doença. No mês passado, dois bebês infectados com sarampo morreram no Condado de Lancaster, na região sudeste do estado. Nenhuma das quatro vítimas havia sido vacinada.

Os óbitos ocorrem em meio a um surto que já se espalhou por uma parcela significativa da Pensilvânia. Quase 700 casos de sarampo foram relatados neste ano em 38 condados do estado, incluindo cerca de 100 nos últimos sete dias, segundo as autoridades. O avanço da doença desperta preocupação quanto ao risco de disseminação do vírus para outros estados dos EUA.

Os Estados Unidos eliminaram a transmissão doméstica do sarampo no ano 2000, quando mantinham alta taxa de vacinação. Esse índice caiu nos últimos anos para menos de 95%, a cobertura necessária para prevenir surtos. Entre crianças americanas no jardim de infância, a proporção com as duas doses recomendadas da vacina tríplice viral caiu de 95,2% no ano letivo de 2019–2020 para 92,4% em 2025–2026, deixando cerca de 280 mil crianças nessa faixa etária sem a proteção esperada.

A queda ocorre em meio a um contexto de desinformação e disputa política. Autoridades de saúde do governo Trump, incluindo o Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., questionaram recentemente a segurança comprovada das vacinas em um nível sem precedentes, além de cortar o financiamento de iniciativas locais para melhorar os índices de vacinação.

Para Bernardo Maia, diretor do pronto-socorro e da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o risco de o vírus se espalhar e provocar surtos em outros estados norte-americanos é alto. “Quando temos 676 casos distribuídos por 37 condados e um surto que se prolonga há meses, já não estamos falando de episódios isolados de sarampo, mas de transmissão comunitária sustentada em diferentes áreas da Pensilvânia. Isso revela, principalmente, a existência de bolsões importantes de pessoas suscetíveis, capazes de manter sucessivas cadeias de transmissão”, explica.

O infectologista destaca a diferença entre transmissão sustentada e reestabelecimento da transmissão endêmica. Para que se considere reestabelecida a endemicidade do sarampo em uma região anteriormente livre da doença, é necessário que haja uma mesma cadeia de transmissão viral por pelo menos 12 meses. “Portanto, o cenário atual é bastante preocupante e demonstra perda de controle do surto em determinadas comunidades, mas ainda não permite, por si só, afirmar que o sarampo voltou a ser endêmico na Pensilvânia”, afirma Maia.

O sarampo está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis conhecidas. Por isso, viagens e deslocamentos entre estados podem levar o vírus de uma comunidade para outra. O risco depende principalmente do perfil de imunização encontrado pelo vírus no novo local. “A chegada do vírus a outro estado não significa necessariamente que haverá um grande surto. O que determina se essa introdução vai se extinguir ou gerar novas cadeias de transmissão é, sobretudo, quantas pessoas suscetíveis o vírus encontrará”, diz o infectologista.

Onde a cobertura vacinal é elevada e homogênea, a tendência é que essas cadeias sejam interrompidas. O maior problema, explica Maia, são comunidades com bolsões de baixa vacinação: para uma doença tão contagiosa quanto o sarampo, pequenas lacunas de cobertura podem ser suficientes para permitir uma disseminação expressiva. “É justamente por isso que manter coberturas vacinais muito altas não é apenas uma medida de proteção individual, mas uma estratégia de proteção coletiva, que reduz a circulação do vírus e protege inclusive aqueles que, por idade ou contraindicações médicas, não podem ser vacinados”, alerta.

O cenário também serve de alerta para o Brasil. Por aqui, o sarampo foi eliminado como problema de saúde pública em 2016, mas perdeu esse status em 2019 após a volta da circulação do vírus. Desde então, o país reforçou a vacinação e as ações de vigilância para evitar novos surtos.

No último dia 9, o número de casos confirmados de sarampo chegou a 30 no estado de São Paulo, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. O balanço atualizado confirmou dois novos episódios da doença em crianças com menos de 2 anos na capital paulista. “Ao todo, quatro cadeias foram identificadas no estado em 2026. A primeira, registrada entre março e abril e associada a dois casos importados, foi encerrada após 12 semanas sem novas ocorrências relacionadas. As cadeias identificadas em junho, julho e agosto permanecem sob acompanhamento das equipes estaduais e municipais.”

Nesses casos, o trabalho consiste em investigar os episódios, procurar pessoas que estiveram em contato com os infectados e verificar a necessidade de ações de vacinação de bloqueio. Para conscientizar a população, a secretaria lançou uma campanha em TV, rádio e veículos independentes incentivando a ida aos postos para verificar a situação vacinal e atualizar a caderneta. O tema da campanha é “A melhor prevenção é a vacinação”.

O esquema vacinal contra o sarampo prevê dose zero para crianças de 6 a 11 meses em situações de risco aumentado de exposição ao vírus, sem substituir as doses do calendário de rotina. A partir de 12 meses, a primeira dose é aplicada com a tríplice viral, e a segunda aos 15 meses, com a tetraviral ou tríplice viral mais varicela. Pessoas de 5 a 29 anos devem iniciar ou completar o esquema de duas doses da tríplice viral, com intervalo mínimo de 30 dias entre elas. Já as pessoas de 30 a 59 anos devem receber uma dose da tríplice viral caso não haja comprovação de vacinação anterior.